Hoje, um fato inédito. Um prato feito por mim mesmo, na minha primeira aventura na cozinha de versos. Espero que gostem.
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Poderia escrever o poema mais triste
O mais melancólico
Tirar lágrimas do leitor que,
Numa noite ainda mais triste
Aventura-se a ler um triste poema
E encontrar sua própria vida
Sua própria maldição
Estampada em versos
Cruelmente
.
Poderia escrever de como
O vento balança lindamente
as copas das árvores
as flores solitárias
o vestido de uma menina
as cortinas do meu quarto
solitário.
.
Poderia escrever da insensibilidade
dos grilos cantando, alegremente
dos jovens sorrindo, inocentes
dos carros passando, veementes
da vida passando, do tempo correndo
lentamente
.
Escrever da lua, pálida, cálida
derramando sua luz prateada
Da ausência de nuvens
num céu negro como nunca
Das estrelas cintilando
contrastando com a noite
como as lágrimas de um rosto
escorrendo.
.
Poderia derramar no papel
tudo o que sinto
o que me aperta
e assim, satisfazer um pouco mais
a sede de poesia daquele leitor
melancólico
Mas não vou, por Deus não vou
admitir minhas lágrimas
publicar minhas dores
expor meu coração
Incrementar com palavras
as dores desse mundo cada vez mais
desiludido
.
Prefiro, apesar de toda a dor,
falar da beleza que ainda perdura
na vida, no tempo, nos sorrisos
dos infantes, velhos, do céu
dos pássaros, das flores,
de tudo o que colore os dias
e nos faz, mesmo que por um momento
anestesiar nossa própria dor.
Prefiro.
.
Mas não hoje.
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